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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
Estive doente das ideias. Às vezes, cada vez mais vezes, padeço desta maleita. As ideias nascem fracas, indolentes, anémicas. Qualquer aragenzinha de contraditório as derruba, enrolam-se sobre si próprias e mirram antes de saírem para o maravilhoso mundo das palavras. Têm dificuldade em sobreviver fora do seu ambiente protegido. Nascem poucas, crescem menos ainda. As que subsistem, mais por preguiça do que por resiliência, para ali se quedam, molengonas, de choro fraquinho.
É uma maleita que me aflige desde sempre. Antes, quando era criança, chegava-me com modos suaves, entornava-se calidamente sobre mim como a calda morna ensopa a textura macia do bolo. Pintava-me a alma em tons de rosa velho e laivos de laranja crepuscular e selava-me os lábios numa reclusão muitas vezes entendida como birra.
A idade, matreira e paciente, aprendeu a ligar com os achaques como quem recebe a visita incontornável de um parente enfadonho: sonha-se sorrateiramente com o dia da partida.